Com a criação do novo Portal da Transparência da Assembleia Legislativa, que começou a funcionar
no final do mês passado, os paranaenses estão tendo a oportunidade de saber como os 54 deputados estaduais gastam
mensalmente a verba de R$ 1,5 milhão a que têm direito para cobrir despesas da atuação parlamentar.
Cada um pode receber R$ 27,5 mil mediante apresentação de notas fiscais. O destino desses recursos públicos
revela algumas surpresas.
As despesas de agosto mostram que boa parte dos deputados repassou dinheiro para vários rádios
e jornais do Paraná. Eles também usaram a verba para encomendar pesquisas de opinião pública,
comprar muita comida, alugar veículos e colocar combustível para rodar por suas regiões.
As informações foram obtidas a partir de consulta feita pela Gazeta do Povo à prestação
de contas de cada deputado. A reportagem cruzou o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) das notas fiscais com
o banco de dados da Receita Federal para descobrir os nomes das empresas que prestaram serviços. O Portal não
informa quem emite a nota fiscal, apenas o CNPJ.
Gastos inusitados foram descobertos – principalmente no quesito “divulgação da atividade parlamentar”,
no qual estão as despesas dos deputados com propaganda pessoal. Fernando Scanavaca
(PDT) é o campeão nessa área. Gastou R$ 7.050,00 com rádios e jornais de Umuarama e região,
sua base eleitoral.
No ranking dos que mais repassaram dinheiro para veículos de comunicação estão ainda Chico
Noroeste (PR), que distribuiu R$ 6,3 mil, e Ademir Bier (PMDB), que pagou R$ 5,7 mil.
Comida
As despesas incluem também alimentação farta. Miltinho Puppio (PSDB) gastou em agosto R$ 5.450,00
– o suficiente para comprar 363 refeições a um preço médio de R$ 15,00 cada uma.
Mais de 90% das despesas de Puppio foram em sua cidade, Jandaia do Sul – ou seja, ele não estava em viagem.
Existe o registro de 15 notas fiscais no Restaurante Oriental, no centro da cidade – todas acima de R$ 150. Já
no Restaurante Simões são 17 notas. Os valores variam entre R$ 12 e R$ 622.
O dono do Restaurante Simões, José Simões, disse que quase sempre o deputado almoça acompanhado.
“Ou são políticos da cidade, do estado, amigos ou pessoas da família. Às vezes o valor sai
meio alto por causa da quantidade de gente”, afirma. O estabelecimento fornece comida ao preço de R$ 18,90 o
quilo.
Já Neivo Beraldin (PDT) desembolsou R$ 4.767,40, dos quais R$ 845,61 foram para a Panificadora Baixinho, em Mallet.
Outra nota, de R$ 833,00, revela compras no Supermercado Peg Pag, em Bela Vista do Paraíso. Ele justifica que raramente
janta sozinho no interior, mas com prefeitos e vereadores. Sobre as despesas em padarias e mercados, alega que foram comprados
alimentos para eventos.
Aluguel de imóveis
O Portal da Transparência também traz notas referentes ao pagamento de “aluguel de comitê político”.
É o caso de Neivo Beraldin, que recebeu ressarcimento de R$ 3.918,00 em agosto. O valor é suficiente para alugar
três conjuntos comerciais que abrigariam adequadamente um escritório parlamentar.
Beraldin alega que o valor corresponde aos aluguéis dos meses de maio e junho do escritório político
que mantém a poucas quadras da Assembleia. “Minha equipe técnica trabalha lá e também recebe
o pessoal que vem do interior”, afirma. Em visita ao local na última quinta-feira à tarde, porém,
a reportagem encontrou o escritório fechado. “O pessoal trabalha dentro, no computador”, defende-se Beraldin.
Já Mário Roque (PMDB) recebeu ressarcimento de R$ 2.700,00 para o aluguel do escritório político
em Paranaguá. O locador é José Juarez Amates, ex-secretário municipal de Meio Ambiente,
na época em que Mário Roque foi o prefeito da cidade.
Carro e combustível
As verbas também foram usadas para outros serviços. Antônio Belinati (PP) utilizou R$ 7.260,00
para locação de veículos. O valor é suficiente para alugar sete Palios com ar-condicionado durante
todo o mês. Ou três Vectras completos, durante 30 dias, incluindo domingos e feriados. A explicação
de Belinati é que ele alugou vários carros que foram usados por assessores na região de Londrina, sua
base eleitoral. “Sai mais barato do que comprar o veículo, mas essa não é uma despesa fixa mensal.
Neste mês já gastei menos”, garante.
A conta de combustível de alguns parlamentares também é alta, quase atingindo o teto da cota mensal
permitida, que é de R$ 4,5 mil. O valor é considerado baixo pela maioria. Antonio Anibeli (PMDB) diz que tem
20 carros trabalhando para ele e pediu o reembolso de R$ 4.499,59. O líder do governo, Luiz Cláudio Romanelli
(PMDB), aparece em segundo neste tipo de gasto. “Tenho 6 carros rodando em 83 municípios e tive
que colocar dinheiro do bolso”, justifica Romanelli.
Cartas e cartões
Também há quem tenha desembolsado mais de R$ 6 mil com “correio e postagens”. O valor de emissão
de uma carta comercial simples pelo Correio custa R$ 1,00 (até 20 gramas). Dependendo do peso, o valor pode chegar
a R$ 5. Os que mais usam essa forma de comunicação são Ney Leprevost (PP) e Mauro Moraes (PMDB).
Da verba mensal de R$ 27,5 mil, Leprevost usou R$ 6.401,00 com os Correios. “Esse gasto vai ser alto todo mês
porque a maioria dos meus eleitores não tem internet e envio correspondências prestando contas do meu trabalho”,
explica. Ele também é presidente da Comissão de Saúde e garante usar sua cota pessoal para envio
de cartas para lideranças do setor.
Mauro Moraes diz ter um cadastro com mais de 130 mil nomes e que só os cartões de aniversário consomem
12 mil selos por mês.
FONTE: Gazeta do Povo Online (Kária Chagas, Euclides Lucas Garcia e Marcos Paulo de Maria)