Sob pressão, o Senado deve rever as limitações para a internet previstas no projeto de reforma eleitoral,
que foi aprovado anteontem pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pela Comissão
de Ciência e Tecnologia (CCT) da Casa. O relator do projeto de reforma eleitoral, senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG),
afirmou que irá propor alterações para deixar claro que os sites poderão emitir livremente opiniões
sobre candidatos, assim como dedicar espaço diferenciado a cada um deles em seus domínios.
O texto aprovado nas comissões impõe à internet os mesmos limites que hoje têm as emissoras
de rádio e televisão. Como rádios e tevês são concessões públicas, ao contrário
dos jornais e revistas, a lei exige que devem destinar a todos os candidatos espaços iguais na cobertura jornalística
das eleições. As emissoras também são proibídas, no período eleitoral, de fazer
“montagens” (charges) que critiquem candidatos.
Segundo Azeredo, o texto a ser levado na próxima terça-feira à votação em plenário
deverá eliminar as restrições aprovadas pelas comissões. “Vamos tentar corrigir, para deixar
claro que sites e blogs não têm essas limitações.”
O senador explicou que, na internet, devem ser mantidas somente as restrições em relação ao
conteúdo eleitoral que seja apresentado em formato de vídeo ou em áudio – pois, nessas circunstâncias,
a internet se assemelha a emissoras de rádio e televisão. Quando a internet for usada de modo semelhante aos
veículos impressos, não haverá limitações.
As chamadas “montagens” ou charges também devem ser liberadas. “A tendência é abrir
espaço na internet. Estamos fazendo um esforço para tentar deixar isso claro no projeto”, disse Azeredo.
“A internet é uma confluência de vários meios de comunicação”, justificou ele.
Negociação
Azeredo começou a negociar com a Câmara dos Deputados as alterações em seu parecer. A ideia
é avaliar os ajustes de forma conjunta, tentando uniformizar o texto, para que a proposta leve menos tempo sendo apreciada
pelos deputados, quando o projeto voltar à Câmara.
A negociação com os deputados é uma forma de garantir que as mudanças eleitorais sejam aprovadas
na Câmara e no Senado até o fim deste mês, de modo que valham já para a disputa eleitoral de 2010.
Caso contrário, a reforma eleitoral só entra em vigência nas eleições municipais de 2012.
De acordo com Azeredo, não há resistências da Câmara em relação às modificações.
A reforma eleitoral estava para ser votada anteontem no plenário do Senado, mas os senadores resolveram adiar a
análise para a semana que vem, para tentar resolver a polêmica do texto que impõe aos sites jornalísticos
as mesmas regras previstas pela legislação às emissoras de rádio e televisão brasileiras.
As regras aprovadas pelas comissões do Senado levaram o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) a defender em
sua página no Twitter, a desobediência às regras que restringem a campanha eleitoral na internet, caso
o projeto de lei seja aprovado no Congresso. “Vamos brigar feio pela liberdade na internet nas eleições.
Na derrota, o caminho é a orientação de (Henry) Thoreau (pensador norte-americano do século 19)
para leis estúpidas: desobedeça”, escreveu Gabeira logo após a aprovação da reforma
eleitoral na CCJ do Senado.
O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) apresentou emendas eliminando as restrições referentes à opinião
e crítica na internet. “Há no texto uma censura prévia”, disse. O senador Osmar Dias (PDT-PR)
observa que há uma tendência no Senado de liberar o uso da internet no período eleitoral. “Acho
que tem de liberar. Mas com critérios para que não vire abuso. Pois, principalmente quem tem maior poder econômico
pode usar a internet para tentar desconstruir a imagem dos candidatos.”
Se o texto for mantido como está, porém, a Ordem dos Advogados do Brasil informou que pretende
entrar com uma ação direta de inconstitucionalidade para impedir as restrições. “A vedação
do direito de crítica a candidatos, na internet, conforme previsto no projeto de lei da reforma eleitoral, é
uma forma de censura e fere a liberdade de expressão, sendo flagrantemente inconstitucional”, afirmou do presidente
da Comissão de Legislação da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho.
FONTE: Gazeta do Povo Online (Rhodrigo Deda e Gladson Angeli, com agências)